sábado, janeiro 28, 2006

Conduta poética


Diriam outrora que brinco as palavras
Que as jogo no texto testando estruturas
Texturas em vão quão fatos sem nexo
Que expresso-me mal por ser tão complexo

Confesso até não fazer letras diretas
tão retas feito entrelinhas de montagem
Que agem em cópia como fossem novidade
um traslado, tão supérfluo, sem verdade

Eu pressinto e repudio ramerrões
Mas os versos, seus sentidos, como vêm
são paridos, não cuspidos! meus torrões...

Pois as letras só me brotam em sentimento
Do momento do suspiro ao desabafo
Que acato, não combino, apenas retrato.

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Re-sentir


A lua torta que eu matei não era a tua
era resquício me cerceando a alma crua
A rua morta e aquela porta já não importam
Aquela grota de um terreiro escura e funda
já enterrou o coração que não me toca

Saiu da toca que eu mesmo fiz foi tua lua
Quando a toquei na rua aberta da porta nua
E essa lua que já é tua e é tão cheia
não me cerceia e não sufoca e entremeia
as velhas crostas de antiga alma reaquecida

Se o meu sorriso te encantou, me encanta o teu
pois eu só rio pra ver brilhar o teu olhar
tão sorridente, traduzido em gargalhar
contemplação que distraído olhar jamais leu
pois não entendeu que é preciso espelhar

domingo, janeiro 15, 2006

Dessentir


Lua torta rua morta tua porta
o que me importa?

Se eu nem sei na lua escura qual é a tua porta?!...
se a rua fosca nem mesmo teve seu funeral?!...
e a lua nem sempre é redondinha mesmo?!...

A lua torta feito fatia de melancia
delicia a boemia dos românticos
num cântico semântico de uma lamparina celestial.

A rua morta que nada a corta é meio torta
mas não se corta é meio curta e pouco entorta
mas é escura é quase estreita é meio morta.

E a tua porta, se é que importa, também é torta?
é tão escura quanto ao jardim que nada brota?
ou é você que se trancou um pouco morta?

Naquela grota no seu terreiro escura e funda
você escondeu o coração temendo medos
e fez segredos dos seus sentires pros seus pensares.

Mas os pesares do seu pensar sem seu sentir
fazem surgir as decisões mais desumanas
tão soberanas da razão mais egoísta.

Tua porta rua torta lua morta
já nem me importa...

domingo, janeiro 08, 2006

Vamos, poeta!


Vamos, poeta! Vamos!
A caneta está à espera de suas ordens
o papel está pronto para se manchar de inspiração
ou de expiração do amontoado de inquietações
que escondes de todos, até de si
e que percussionam em alegrias, em tristezas
com a destreza das alergias, das brotoejas

Vamos, poeta! Desembucha!
Saia da inércia e da apatia que te empacam
Não ouse tornar-te cadáver sem a morte corporal
Exponha essas mazelas que são suas
Liberte os sentimentos, que hibernam, decadentes
Mostre os dentes e destrua a carcaça
desta crosta que erguestes no teu peito

Vamos, poeta! Saia e viva!
Desabriga essas angústias rotineiras
tão faceiras e mordazes inquilinas
mas franzinas se igualadas às de outro tempo
Deporte de si mesmo os velhos medos
não é segredo que há janelas pra derramá-los
Haja nelas trancas, destranque-as

Vamos, poeta! Poetize!