terça-feira, março 20, 2007

Sem remelas de dúvidas


Não gosto de jogar conversa fora
jogar fora eu jogo fumaça
e não passa pela minha cabeça espessa
tornar avessas minhas tênues opiniões.


Que transpirem só as que pesem algum grama
sem o drama volátil de mudanças constantes

que em instantes mudam de forma e utilidade

e, na verdade, opinião é um estado de espírito

e muda tanto e tão rapidamente

que nem sente, de tão sutilmente,
tantos pontos de vista virarem reticências...

numa cadência de conveniências pontilhadas

de insistente abrir-e-fechar-de-olhos

a piscar e a esmagar remelas de dúvidas.

terça-feira, março 06, 2007

Eu líqüido


Constantemente me vejo como água
muitas vezes calmo quase água parada
ora manso quase sem pensamentos
ou suave em lembranças amenas

ora arisco entre episódios turvos
e sujos caldos no cérebro circulantes
nos semblantes dos regatos cristalinos
me torno em rio, sorrio, arrepio

É a gravidade do tempo a me puxar
me debato em cachoeiras nas pedras
ralo-me todo em cascatas e curvas

me sublimo em nuvens carregadas
me rebento em chuvas, a desaguar
espumante, liqüefeito, em águas do mar.

sexta-feira, março 02, 2007

Indigestão cerebral


Penso e pondero com a consciência multifacetada
concordo e discordo do inconsciente em versos
sinto o anverso do meu ego rarefeito
e refeito em mistérios no reverso intransponível

No nível abaixo da tênue aparência
procuro me ver conforme a cadência
das crenças insanas, dos atos profanos
mas trago na essência milhares de origens

Mastigo dezenas de informações variadas
degluto sempre desconfiando do paladar
e o que causa azia é sofregamente regurgitado
até que o cérebro se canse desse esforço digestivo

Não quero mais me consumir em divagações incessantes
De pensar ininterruptamente dispensei o meu sossego
e o desapego à tranqüilidade tomou conta
e fez surgir um faz-de-conta de vida atribulada
e atrelada a cavalos desiguais de uma carruagem cambeta.