Sem remelas de dúvidas
Não gosto de jogar conversa fora
jogar fora eu jogo fumaça
e não passa pela minha cabeça espessa
tornar avessas minhas tênues opiniões.
Que transpirem só as que pesem algum grama
sem o drama volátil de mudanças constantes
que em instantes mudam de forma e utilidade
e, na verdade, opinião é um estado de espírito
e muda tanto e tão rapidamente
que nem sente, de tão sutilmente,
tantos pontos de vista virarem reticências...
numa cadência de conveniências pontilhadas
de insistente abrir-e-fechar-de-olhos
a piscar e a esmagar remelas de dúvidas.
Eu líqüido
Constantemente me vejo como águamuitas vezes calmo quase água paradaora manso quase sem pensamentosou suave em lembranças amenasora arisco entre episódios turvose sujos caldos no cérebro circulantesnos semblantes dos regatos cristalinosme torno em rio, sorrio, arrepioÉ a gravidade do tempo a me puxarme debato em cachoeiras nas pedrasralo-me todo em cascatas e curvasme sublimo em nuvens carregadasme rebento em chuvas, a desaguarespumante, liqüefeito, em águas do mar.
Indigestão cerebral
Penso e pondero com a consciência multifacetada
concordo e discordo do inconsciente em versos
sinto o anverso do meu ego rarefeito
e refeito em mistérios no reverso intransponível
No nível abaixo da tênue aparência
procuro me ver conforme a cadência
das crenças insanas, dos atos profanos
mas trago na essência milhares de origens
Mastigo dezenas de informações variadas
degluto sempre desconfiando do paladar
e o que causa azia é sofregamente regurgitado
até que o cérebro se canse desse esforço digestivo
Não quero mais me consumir em divagações incessantes
De pensar ininterruptamente dispensei o meu sossego
e o desapego à tranqüilidade tomou conta
e fez surgir um faz-de-conta de vida atribulada
e atrelada a cavalos desiguais de uma carruagem cambeta.