Expiro
Se da minha boca brotam versos tristes
se existe angústia nas sílabas que me caem
se saem do coração palavras soluçadas
ou, desalinhadas, as letras eu rabisco confuso
e se obtuso despenca meu elegíaco intento
são meus lamentos que pretendo suprimir
e exigir o exílio dos mais sombrios flagelos
num singelo desejo de espantar os medos.
Os segredos de dores mais guardadas
e trancadas à surdina nos porões da mente
de repente se projetam, vêm à tona
e a soma de feridas escondidas
do equilíbrio roubam todo o espaço
mas não doem mazelas escritas em desabafo.
Meta-risada
Um sorriso soluçado
um riso despedaçado
amassado, apertado
por bolsas abastadas
de lágrimas reprimidas
entre o riso amarelo
e a tristeza em preto e branco.
Mas basta nervos em colapso
uma piada inusitada
ou um riso em comprimido
pra surgir uma meta-risada.
Meta a risada
às gargalhadas
ao orgasmo do riso...
...num sorriso azul
de faces avermelhadas.
Periferia
Nas luzes amarelas das ruas desertas
com sombras incertas, absortas, meio alertas
relembro minha vila em nesga da metrópole.
Nas ruas desertas com luzes amarelas
das páginas amarelas não constam os bares
nem lares animados, nas noites, rubros.
Nas ruas amarelas com prosas dormidas
os sonhos cortados por festas e labutas
e as frestas nas testas de línguas afiadas.
Nas luzes desertas de becos incertos
abertos em meio a casas e prédios apagados
relembro cidadela com celas de sinas hipnóticas.
Os becos abertos de luzes incertas
se rompem em feridas antigas, cicatrizadas
suavizadas no emaranhado de cortiços.
Nas luzes fechadas dos becos desertos
tão perto se faz o limite do olhar
tão longe se faz o vislumbre do porvir.